LEMBRANÇAS DE MOSCOUZINHO (1943-1964):

Estudo de um Conjunto Residencial Operário

Wilma Mangabeira

Este artigo pretende discutir algumas questões sobre cultura operária, tomando por base uma pesquisa realizada em uma comunidade de trabalhadores conhecida como "Moscouzinho" , que teve seu período áureo entre 1943 e 1964.1 Meu objetivo é contribuir para o conjunto de estudos sobre a classe trabalhadora brasileira, ao resgatar uma experiência habitacional popular especialmente rica para a discussão acerca da autonomia ou interdependência da cultura operária em relação a outros grupos sociais.

No Brasil, estudos como o de Leite Lopes, Blay e Oliveira, 2 dedicados aos conflitos surgidos a partir de uma forma específica de moradia operária, são exemplos dessa discussão. Valladares, Farah e Bonduke, 3 ao buscarem interpretar a intervenção estatal no espaço da moradia popular, contribuem igualmente para o debate.

Em termos de influência internacional, apesar da inexistência de uma unidade temática tal qual encontramos nos estudos referidos acima, três linhas de análise são referências importantes. Em primeiro lugar, podemos citar os estudos da chamada social history inglesa, que, ao proporem um corte com as concepções estruturalistas sobre a constituição da classe trabalhadora, possibilitam uma nova leitura das relações entre as classes sociais 4 . O exemplo clássico desta perspectiva é o trabalho de E. P. Thompson sobre a classe trabalhadora inglesa. 5

Entre os franceses, dois conjuntos de contribuições podem ser apontados. De um lado, os estudos reunidos em torno da "Nova Sociologia Urbana Francesa" , como os de Lojkine, Topalov e Preteceille & Terrail, 6 que investigam a atuação estatal no campo habitacional e mostram como o Estado busca intervir na esfera da reprodução da força de trabalho, respondendo e reinterpretando reivindicações colocadas pelos movimentos sociais. Um segundo grupo reúne-se em torno de nomes como o de, Foucault, Donzelot e Murard & Zylberman, 7 que reconstroem o processo de normalização a que foram submetidos diversos grupos sociais no século XIX na Europa, especialmente os trabalhadores e os pobres. Através destes estudos podemos acompanhar o delineamento de um sentido de habitat, com a criação de um espaço especificamente doméstico e a sobreposição entre moralidade e conhecimentos médico, higiênico e arquitetônico.

Moscouzinho é o nome pelo qual a comunidade de moradores do Conjunto Residencial de Realengo tornou-se conhecida, muito provavelmente em virtude de um grupo de moradores com militância no Partido Comunista Brasileiro-PCB. A influência do PCB estendia-se além do quadro de moradores militares e se fazia sentir, durante campanhas eleitorais como a de 1945, nas instituições culturais e educacionais criadas pelos moradores e na participação sindical de alguns operários nos seus locais de trabalho.

Localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Conjunto Residencial de Realengo foi resultado da política habitacional do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, o IAPI.

Originário das Caixas de Aposentodorias e Pensões, 8 o IAPI era fundamentalmente uma instituição previdenciária, mas a partir de 1937 estabeleceu-se as bases para sua atuação no campo habitacional. Gerada numa conjuntura marcada pelo paternalismo nas relações entre Estado e classe operária, a política habitacional do IAPI visava, entre outros objetivos, intervir sobre as condições gerais de reprodução da força de trabalho.

Esta intervenção não buscava apenas rebaixar os custos de reprodução da força de trabalho, oferecendo moradias para serem alugadas a valores abaixo daqueles cobrados pelo mercado, ou mostrar o "interesse" do Estado para com as precárias condições de moradia da classe trabalhadora. A política habitacional do IAPI era carregada de fortes traços normalizadores e propunha-se a transformar os seus "clientes" em "operários padrões", através de um conjunto de intervenções no espaço de moradia. Essa intervenção, sagazmente denominada pelo IAPI de "engenharia social", incluía a oferta de meios de consumo coletivo, de serviços gerais e de manutenção do Conjunto, e a presença direta e cotidiana de assistentes sociais, que através de pressões e interdições tentavam dirigir e normatizar a ocupação da moradia e o uso do Conjunto por parte do grupo morador.

A questão central que a pesquisa procurou responder foi a seguinte: como analisar a coexistência de duas realidades marcadamente distintas, expressas no projeto de " engenharia social" proposto pelo IAPI e na história dos moradores da comunidade de Moscouzinho?

Uma inquietação teórica refere-se ao próprio grupo operário que de " objetos carentes" de uma política estatal normalizadora, tornaram-se sujeitos e atores de uma comunidade tão atuante a ponto de ser nomeada Moscouzinho, à imagem da capital soviética. O desafio analítico foi o de explicar como os dois processos não ocorreram de forma excludente – por exemplo, a comunidade se tornado mais atuante quando da retirada do IAPI – mas, que estas duas realidades teriam ocorrido de forma simultânea e inter-referenciada.

A perspectiva adotada foi a de considerar o contexto histórico e suas determinações mais gerais, como a política estatal vigente e a correlação de forças entre classe operária e Estado.

Procurei, em primeiro lugar, reconstituir esses dois processos, que foram vistos, para recurso analítico, isoladamente. Quais eram os elementos constitutivos da "engenharia social" do IAPI, inicialmente como projeto e posteriormente como gestão? Quais eram os elementos constitutivos da comunidade local e como a identidade coletiva pôde se impor sobre as diferenciações no interior da classe?

Esse segundo lugar, busquei detectar os elementos de conflito, subordinação, resistência e incorporação na relação entre o IAPI e a comunidade, já que cada uma destas duas realidades constituiu-se vis-à-vis a outra, influenciando-se mutuamente. Seguindo a sugestão de Thompson, procurei "deixar falar o trabalhador" e ao mesmo tempo sobrepor, no interior mesmo da análise, as diversas variáveis constitutivas do aparente paradoxo " engenharia social" versus Moscouzinho.

PEQUENO HISTÓRICO DA PROPOSTA DO IAPI

O Conjunto Residencial de Realengo foi a primeira intervenção no campo habitacional feita pelo IAPI. Entre 1940 e 1951 foram construídos um total de 52 conjuntos habitacionais, espalhados por diversos estados do País mais com forte concentração nos centros operários do Rio de Janeiro e São Paulo.9

A construção do conjunto foi iniciada em 1940 e concluída em 1943.10 Como a primeira iniciativa do IAPI na área, foi um campo de experiências tanto no sentido técnico-arquitetônico quanto no aspecto financeiro e social, como tentarei mostrar em detalhes.

Os conjuntos residenciais eram espaços adequados para os propósitos de manipulação política por parte do Estado, em função da aglomeração de trabalhadores e de sua situação de " necessitados" frente à burocracia do Instituto. É bom lembrar que os conjuntos, pela primeira vez, possibilitaram uma maior intervenção do Estado e suas agências no espaço de reprodução da força de trabalho. Até esse momento a favela e o cortiço eram bastante impenetráveis pelas agências governamentais.

A localização dos conjuntos distantes dos centros urbanos foi a solução encontrada pelo IAPI para fazer frente aos altos preços dos terrenos nas áreas centrais mais valorizadas. No Rio de Janeiro, por exemplo, essa solução econômica só foi possível graças à expansão da rede ferroviária, que passou a cobrir a Região Oeste da cidade.

O isolamento dos conjuntos em relação ao centro da cidade, parecendo aos olhos do público como uma verdadeira "cidade operária", dava-lhes uma visibilidade muito maior do que construções dispersas no interior dos centros urbanos, atendendo, assim, aos propósitos políticos do Estado. Essa visibilidade oferecida pelos conjuntos residenciais foi exaustivamente utilizada pelo governo federal, pelo Ministério do Trabalho e pela presidência do IAPI.11

Por ser o primeiro, o Conjunto de Realengo funcionava para o IAPI como uma "vitrina" das soluções encontradas para o problema da escassez de moradias populares. Dessa forma, as realizações do Instituto e o propalado interesse de Vargas, e posteriormente de Dutra, pelos problemas da classe trabalhadora brasileira achavam-se devidamente expostos e propagandeados.

A solução financeira encontrada para preservar a saúde contábil do Instituto e ao mesmo tempo oferecer moradias com preços subsidiados aos operários foi a de colocá-las para locação e não à venda.

Quanto à construção, dois eixos centrais de preocupações estiveram presentes: reduzir os custos e ao mesmo tempo garantir os aspectos de "cidade-jardim"12 européia e americana que serviram de inspiração inicial para o projeto. A redução dos custos implicava garantir, principalmente, o baixo valor do terreno, a simplificação e padronização das construções e a simplicidade nas moradias, "abrindo mão dos detalhes", como atestam os documentos de época. A reprodução do modelo da "cidade-jardim" implicava garantir infra-estrutura, oferecer meios de consumo coletivo e aplicar "regras higiênicas" , isto é, seguir os padrões de "densidade", "luminosidade" e "circulação" tidos pelos técnicos como índices de salubridade.13

Esse projeto pioneiro que foi o Conjunto Residencial de Realengo completa-se com a instalação da chamada assistência social, que consistia em oferecer assistência médica, "auxílio material de emergência aos moradores necessitados" em caso de doença ou desemprego, atividades culturais e "serviços de subsistência", como leiteria, açougue e mercearia, visando facilitar o abastecimento doméstico a preços reduzidos. Finalmente supunha o estabelecimento de um posto de administração do Conjunto, para oferecer serviços de manutenção e reparo das moradias.

A intervenção da assistência social e de outros agentes do IAPI na vida e na casa dos moradores do Conjunto era, enfim, marcante.14 Todos esses elementos configuram um projeto normalizador que os técnicos do IAPI denominavam, como já foi mencionado, de "engenharia social".

Na reconstrução histórica desta proposta foi possível resgatar dois eixos principais. No primeiro, que denominei de "modelo visível", estão as práticas de assistência social, divididas em três grupos: as de "assistência social de controle explícito", as de "bem-estar" e as práticas que procuravam impor novas regras para ocupar o tempo livre do trabalhador.15 O segundo eixo de "engenharia social", que denominei de "modelo invisível", refere-se àquele que está inscrito no espaço físico do Conjunto. O espaço concreto da moradia operária, a configuração interna e externa deste espaço são, paradoxalmente, menos visíveis mas nem por isso menos reveladores de um projeto de controle.

Neste ponto, após ter caracterizado o Conjunto e exposto em linhas gerais no que consistia o que denomino de projeto de normalização, cabe ressaltar que este projeto não se impôs a um grupo operário, foi simultaneamente sendo influenciado por ele, numa relação dinâmica e complexa. O projeto normalizador do IAPI irá conviver com uma comunidade operária dotada de forte identidade de classe, marcada por suas redes de vizinhança e amizade, pela criação, por iniciativa do grupo morador, de instituições culturais e educacionais e pela participação político-partidária e sindical de significativo número de moradores.

ASPECTOS GERAIS DA PESQUISA

Minha proposta era estudar a constituição, controlada pelo Estado, de uma comunidade operária que foi simultaneamente uma experiência de movimento social. Aparentemente um paradoxo. Como poderia ter Moscouzinho coexistido com o projeto de normalização do IAPI?

A pesquisa contou com três entradas no campo: em 1981, em 1983 e em 1985. Foi baseada em depoimentos/entrevistas, leitura de arquivos e observação direta. A reconstrução histórica do Conjunto, desde sua criação em 1943, até a crise e a conseqüente descaracterização da comunidade, em 1964, foi feita através do recurso à memória de informantes idosos, entre 64 e 83 anos, e à observação direta junto a esse grupo. Moradores de "primeira geração", estes informantes são testemunhos vivos de uma política muito particular de habitação popular levada a cabo por um órgão governamental no Brasil dos anos 40.

Foi durante a terceira etapa do trabalho de campo que pude ampliar a rede de informantes, pesquisando não apenas junto ao grupo que denominei de "ativo", composto por antigas lideranças locais ou moradores engajados de alguma forma nas atividades associativas desenvolvidas pela comunidade. A ampliação da rede de informantes, abarcando antigos moradores do grupo "não-ativo", foi importante para o enriquecimento das versões sobre a história local e para desenvolver uma perspectiva comparativa e relativizadora.

Mediante entrevistas, 16 fotos e observação direta, foi possível ir comparando o passado que estava sendo reconstituído através dos depoimentos e o presente da comunidade. Além desse rico material de pesquisa, foi extremamente útil a descoberta do antigo arquivo do IAPI, com processos dos moradores de primeira geração.17 Assim, através de relatos das visitas de assistentes sociais e da correspondência relativa a pedidos de moradores quanto a alterações na arquitetura e no uso de suas moradias, foi possível acompanhar o embate travado entre moradores e IAPI durante as décadas de 40 e 50.

COMO OS "INDUSTRIÁRIOS" SE TRANSFORMARAM NA "COMUNIDADE DE MOSCOUZINHO"

O elemento comum aos candidatos selecionados para residirem no Conjunto de Realengo era o fato de serem inscritos como Industriários no IAPI. Só assim teriam o direito, ao menos formal, de candidatarem-se a uma casa.18 Industriários, segundo a própria classificação do IAPI, eram, entre outros, "todos os que, sob qualquer forma de remuneração, trabalham em serviços diretamente ligados à produção manufatureira ou transformação de utilidades nos estabelecimentos em que seja exclusiva ou preponderante essa atividade".19

Reunidos sob a categoria de "Industriários", estes operários são exemplos significativos do tipo de indústria predominante naquele período e região. O grupo era composto, entre outros, de sapateiros, alfaiates, costureiras, gráficos e vários profissionais ligados à indústria de tecelagem, como massaroqueiras, tecelões/tecelãs e fiandeiras.

Mesmo que o eixo aglutinador deste grupo operário tenha sido inicialmente o IAPI, que tratou da seleção dos "Industriários" classificados, o grupo morador foi pouco a pouco constituindo-se numa comunidade com identidade e interesses próprios.20

Por parte do grupo morador, algumas características acerca de sua composição e ideologia já se impunham antes mesmo da ocupação do Conjunto. Existia entre os residentes uma forte identidade de trabalhador, na medida em que muitos ingressaram no mercado de trabalho ainda crianças. Aprenderam um ofício com os pais e tornaram-se trabalhadores em atividades produtivas de caráter predominantemente manufatureiro, como já me referi acima. Algumas participaram, antes mesmo de virem a residir no Conjunto, dos respectivos sindicatos profissionais e/ou do Partido Comunista Brasileiro. Assim, na representação dos informantes, o Conjunto de Realengo foi ocupado por um grupo de trabalhadores "iguais", que teriam "dado vida a um lugar inabitado".

Cabe ressaltar, no entanto, que existiam vários critérios de diferenciação no interior do grupo operário. Se não estou aqui descrevendo detalhadamente estes aspectos é porque quero ressaltar, principalmente, o movimento de constituição do grupo, em que a identidade coletiva se sobrepõe às diferenciações.21

Os eixos de diferenciação do grupo operário eram variados e incluíam, além da mais tangível diferença entre o grupo de militantes e/ou ativos e o grupo dos não-ativos, diferenças quanto à época de chegada ao Conjunto, à qualificação e quanto ao que os moradores denominavam de "operários de salário mínimo". Por fim, existiam as diferenciações sociais que tinham por base alterações nas moradias e nos diferentes padrões de consumo. Os modelos dominantes entre o grupo morador no que se refere a família, moral e respeitabilidade, se não eram um critério explícito de diferenciação, regiam a lógica de certas amizades e de convivência na comunidade e vizinhança, principalmente entre as moradoras mulheres.22

Quanto aos aspectos da identidade coletiva, a comunidade de Moscouzinho constituiu-se em torno de instituições culturais e educacionais, na reapropriação do e no embate com o modelo IAPI, e nas campanhas políticas em época eleitoral.

Dentre as instituições criadas destaco o Centro Recreativo dos Industriários de Realengo – CRIR, o Centro Cultural Feminino e a Associação dos Inativos. Estas instituições eram chamadas de Sociedades pelos informantes e foram importantes canais de mútuo conhecimento e de formação de lideranças. Organizavam festas e atividades, comemoravam o 1º de maio e apareciam como opção cultural para os moradores ao longo de todo o ano.

Dois princípios norteavam a prática nestas instituições e merecem destaque. O primeiro princípio era o de "trabalho versus solidariedade". Apesar das atividades nas Sociedades exigirem horas de dedicação e energia e representarem um trabalho em todos os sentidos, elas não eram, nem poderiam ser, remuneradas. Segundo os moradores, a participação nas Sociedades deveria ser baseada na solidariedade com relação aos seus membros, em oposição a um possível retorno financeiro.

O segundo princípio de organização das Sociedades diz respeito à visão que o grupo morador tinha da atividade política. Ela expressa, a meu ver, como a categoria política era designativa, para eles, de uma prática necessariamente instrumentalizada e formal. Para os informantes do grupo ativo, o trabalho desenvolvido nas Sociedades era "apolítico" e deveria assim permanecer. A política era vista apenas como política partidária, seja ela de partidos legais ou não.

Existia, ainda, um outro canal de participação dos moradores, não inteiramente autônomo do IAPI como os demais, chamado Conselho Locatário. Este Conselho foi criado em 1945 a partir de uma reivindicação da comunidade mas sob o domínio e coordenação do IAPI. Funcionou até 1958 e era composto por conselheiros diretamente eleitos pelos moradores, que podiam votar e ser votados. Nele eram discutidos problemas gerais e coletivos como, por exemplo, transporte e coleta de lixo. O Conselho Locatário não parece ter sido um meio eficaz de pressão a favor da mudança de certas práticas coercitivas levadas a cabo pelo IAPI.

Para os moradores, existia uma clara divisão entre as instituições do grupo do "nós" e as do grupo do "eles".23 Apesar de as Sociedades não terem enfrentado oposição por parte do IAPI, os moradores sabiam bem os limites e liberdades que poderiam atribuir às instituições, que variavam segundo a conjuntura política nacional.

Na história da comunidade, três momentos podem ser delineados. O primeiro é aquele de sua fundação, de colocação em prática das propostas normalizadoras do IAPI, por um lado, e de ocupação do Conjunto pelos moradores, que entram em contato com uma infinidade de pessoas, famílias, experiências e tradições, por outro.

Um segundo momento pode ser caracterizado como o período áureo de Moscouzinho. É o período de construção da comunidade vis-à-vis o projeto normalizador do IAPI. Este segundo momento encerra-se, para os informantes, em 1964, quando a comunidade sofre uma ruptura nos seus padrões de organização e identidade, pela desarticulação das Sociedades e a repressão sobre os moradores/militantes. Essa descaracterização da comunidade agrava-se ainda mais quando, por essa época, o IAPI encerra seus vínculos com os moradores em função da criação do Banco Nacional de Habitação – BNH, que extingue a Carteira Imobiliária do IAPI e de outros institutos e define uma política de venda dos conjuntos residenciais.24 A partir desta data observa-se a saída de moradores "de primeira geração" e a entrada de novos ocupantes. Estes manterão pouco ou nenhum vínculo de identidade com a comunidade original e serão responsabilizados, pelos primeiros moradores, pela descaracterização sofrida pela comunidade.

No terceiro momento, que a grosso modo compreende o período entre 1964 e os dias de hoje, Moscouzinho vai perdendo suas características particulares: a união, a solidariedade, a grande atividade associativa.

A LUTA SURDA PELA OCUPAÇÃO DA CASA

Assim como identifiquei um modelo "visível" e outro "invisível" no projeto de "engenharia social" do IAPI, podemos identificar um modelo análogo do ponto de vista do grupo morador.

Na constituição da comunidade de Moscouzinho e no embate entre o modelo imposto pelo IAPI e a cultura vivenciada pelo grupo, é possível verificar tanto aspectos mais visíveis, como as instituições culturais e educacionais, quanto aqueles menos visíveis, como os embates travados pelos moradores na reapropriação do espaço de suas casas.

A forte repressão exercida pelo IAPI na primeira década de ocupação do Conjunto é um elemento muito presente na representação dos moradores entrevistados e foi objeto de vários confrontos entre estes e o Instituto. A partir da análise dos processos movidos pelos moradores e das entrevistas com os informantes, foi possível verificar a existência de uma verdadeira luta surda entre o que era permitido pelo IAPI e o uso e alterações que os moradores desejavam fazer em suas casas.

As modificações eram de diferentes qualidades. Existiam as modificações cujo caráter era decorativo – colocação de quadros, fotografias e outros objetos, por exemplo – e as alterações que buscavam uma redivisão do espaço interno da moradia, como a colocação de cortinas e divisórias. Outro tipo de alteração tinha um caráter mais permanente: eram reformas que alteravam a estrutura original da moradia – construção de "puxados", redivisão interna dos cômodos pela colocação de paredes, alteração da localização original da cozinha e/ou banheiro. Um terceiro tipo de reforma, também de caráter permanente mas que não interferia na estrutura da casa, consistia em alterações "de afluência". Eram resultado da vontade do morador de substituir certos materiais por outros de melhor qualidade, como mudança das esquadrias das janelas e portas, colocação de grades, mudança do piso ou ainda colocação de ladrilhos no banheiro ou cozinha. Por fim, existiam as modificações que alteravam a feição externa da casa como, por exemplo, a pintura de cor diferente da cor homogênea e predominante ou a ampliação do espaço destinado à varanda.

Todas as alterações descritas, fossem elas de caráter mais ou menos permanente, enfrentaram uma forte reação por parte do IAPI e foram objeto de uma forte história de resistência por parte dos moradores. Estas modificações visavam não apenas reapropriar o espaço da casa segundo a necessidade e gosto de cada morador individualmente, mas eram carregadas, também, de uma forte simbologia, expressiva do modelo familiar, da noção de privacidade e da estética do grupo.

Um outro aspecto interessante nestas alterações é que, mesmo sendo iniciativas e respostas individuais realizadas no espaço privado da casa, aos poucos – seja porque representam soluções plausíveis e interessantes para os problemas enfrentados, seja pelo aspecto competitivo com que a aparência e a reforma na casa são investidas – elas vão se tornando coletivas através da cópia pelos vizinhos ou amigos, até configurar-se em um modelo de casa predominante. Na medida em que se torna modelo predominante, ganha força para se impor frente ao IAPI.

Não é possível descrever aqui todos os casos que foram analisados na pesquisa original, 25 mas o exemplo da colocação de muros nas casas é ilustrativo do que afirmei acima.

As moradias do Conjunto, ao serem inauguradas em 1943, foram entregues aos locatários sem qualquer elemento que pudesse demarcar os limites das "propriedades" de cada morador, a não ser as dezenas de árvores denominadas de fícus italiano plantadas no espaço limítrofe das casas. Como, no entanto, os fícus haviam sido plantados pouco antes da ocupação do Conjunto, eram de tamanho reduzido e não cumpriam sua função de cercas vivas. Aos poucos, porém, os moradores foram construindo, por iniciativa própria, muros nas laterais das moradias, delimitando seu espaço com o do vizinho, e na frente de suas casas, de forma a criar uma fronteira entre o espaço público da calçada da rua e o espaço privado do quintal. Os muros e portões eram dos mais variados tipos e materiais: arame farpado, tijolo, madeira e até ferro. Essa modificação na feição original das casas era explicitamente proibida pelo IAPI, sobretudo porque a construção do muro implicava o abate dos fícus.

Apesar da proibição, os muros foram construídos. Durante mais ou menos um ano o IAPI fez grande pressão contra os moradores de casas muradas, exigindo que derrubassem os muros construídos. Houve até ameaça de despejo. Entretanto, após este período, e diante do número crescente de muros construídos, o IAPI não apenas permitiu sua permanência como tomou para si a tarefa de construí-los, mediante pagamento parcelado acrescido ao valor do aluguel do locatário.

Na lógica do IAPI, construir os muros era a forma de garantir a homogeneidade rompida e voltar a ter autoridade sobre a ocupação do espaço do Conjunto. Para os moradores, a construção de muros que delimitassem claramente as fronteiras entre as "propriedades" era vista como condição necessária para a preservação da intimidade do lar, que transcende o espaço interno da moradia e estende-se para a varanda e o quintal, dos olhares incômodos não apenas dos vizinhos como também dos transeuntes.

O exemplo do muro ilustra bem como uma iniciativa individual ganhou corpo entre o grupo morador e conseguiu impor-se ao IAPI, obrigando-o a reverter sua posição.

MOSCOUZINHO, CATEGORIA DE ACUSAÇÃO OU ELOGIO?

O ano de 1964 foi um marco para toda a comunidade. Na representação dos moradores, tratou-se de uma ruptura com o perfil comunitário até então existente. Apesar de as atividades associativas terem transcorrido relativamente autônomas nas variadas, conjunturas históricas nacionais até 1964, teria havido conjunturas mais ou menos favoráveis às atividades do grupo ativo. O período de maior participação deste grupo, foi depois da queda do Estado Novo, durante a fase de redemocratização e legalidade do Partido Comunista Brasileiro. Nesta época, as atividades nas Sociedades estavam em pleno funcionamento e a prática política dos moradores comunistas era feita de forma ampla e aberta. 26

Neste período, foi possível aos moradores participar ativamente na campanha dos candidatos à Constituinte de 1945. Os moradores comunistas fizeram uma campanha eleitoral intensa em favor dos candidatos apresentados pelo PCB e apresentaram a candidatura de uma moradora comunista.

Apesar de a morada não ter sido eleita, o PCB elegeu uma bancada de 14 deputados federais e o senador Luiz Carlos Prestes, pelo antigo Distrito Federal. 27 Pela primeira vez colocou-se para o PCB a real possibilidade de vir a se constituir num partido de massa. A campanha pública e aberta em favor de candidatos comunistas é um dos possíveis elementos explicativos de por que a comunidade de Realengo ganhou o nome de Moscouzinho.

Em 1947, com a mudança no contexto internacional e o início da Guerra Fria, o registro do PCB foi cassado, suas sedes fechadas, os parlamentares comunistas tiveram seus mandatos cassados e foram colocados na ilegalidade. Iniciou-se, então, um período de descenso do movimento comunista em sua atuação junto aos filiados e simpatizantes.

Apesar de ter sido um período difícil, tanto no Conjunto quanto nos sindicatos, a repressão aos comunistas não se expressou em prisões na comunidade. Os moradores comunistas permaneceram no Conjunto e havia um ambiente de tolerância que permitia a convivência entre as várias posições políticas. 28

Como afirmei acima, a grande ruptura na história da comunidade foi o ano de 1964, com a prisão de moradores e a proibição do grupo ativo de continuar seu trabalho no CRIR. A repressão desencadeada a partir de então veio a desorganizar, profundamente o perfil da comunidade, rompendo-se os antigos laços de lealdade compartilhados pelos seus membros.

Segundo os informantes, o trabalho de denúncia à política dos chamados "subversivos" teria contado com o auxílio de alguns moradores do Conjunto. Esta situação e o posterior isolamento do grupo ativo das atividades da comunidade determinaram uma nova relação entre seus membros. Até 1964 não havia uma disputa explica ou acirrada no Conjunto entre comunistas e anticomunistas ou entre grupo ativo e não-ativo. Apesar da presença de membros de outros partidos políticos, mesmo no grupo ativo, como o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, as divergências políticas eram secundarizadas diante do pertencimento comum àquela comunidade e da forte identidade de trabalhador. 29

Como já foi mencionado anteriormente, o nome Moscouzinho relaciona-se muito provavelmente com os anos de 1945 e 1946, quando as lideranças organizam a visita de Luis Carlos Prestes ao Conjunto e alguns membros do grupo ativo trabalharam abertamente em favor de candidatos comunistas para a Constituinte.

Por parte dos informantes existem várias versões dando conta da origem do nome. Duas versões merecem registro. 30 Para alguns, o nome teria origem no IAPI e/ou em elementos externos à comunidade. Neste caso, Moscouzinho funcionaria como uma categoria de acusação, buscando isolar e enfraquecer a comunidade.

Numa outra versão, o nome Moscouzinho teria sido dado pelos próprios moradores com um sentido positivo, como um reconhecimento dos esforços empreendidos pelos moradores comunistas para melhorar e alterar as condições de vida de comunidade e como uma ampla resposta positiva dos moradores às atividades associativas e aos candidatos comunistas.

Independente das divergências existentes nas versões dos informantes, o nome Moscouzinho tornou-se uma referência de identidade para a comunidade e o é até hoje, apesar de referido a fatos e movimentos ocorridos há muitos anos.

CONCLUSÃO:

ALGUMAS QUESTÕES SOBRE A CULTURA OPERÁRIA

A ideologia subjacente ao modelo normalizador do IAPI era a da desqualificação do passado cultural operário, que deveria ser inteiramente reinventado à luz das soluções dos técnicos do IAPI. O cortiço e a favela foram caracterizados como espaço da " perdição", da promiscuidade, da instabilidade familiar, da mortalidade infantil, da " falta de cultura" e da ausência de hábitos para o trabalho.

O Conjunto Residencial aparece como o espaço de reunião das famílias, da estabilidade, da ordem, onde os hábitos de higiene poderiam ser implementados e onde as horas livres seriam " proveitosamente utilizadas" segundo a perspectiva do IAPI.

Resultado concreto desse discurso foram habitações extremamente precárias do ponto de vista da qualidade dos materiais usados, ao lado de "soluções" arquitetônicas que se chocavam com as práticas de moradia e reprodução do grupo operário. Tanto a administração local quanto a assistência social praticadas no Conjunto completarão o quadro ao impor todo um sistema de controle sobre os modos de vida do morador.

A imposição de um habitar que não considera a cultura do grupo morador tem raízes ideológicas e políticas muito mais amplas que o registro meio dos técnicos do IAPI. O modelo normalizador desta instituição relaciona-se, a meu ver, com a representação que os grupos dominantes tinham da classe trabalhadora neste período histórico.

O tipo ideal de operário que se buscava construir na conjuntura da década de 40 no Brasil é que permite explicar o modelo de habitação que o IAPI procurou implantar nos conjuntos residenciais e, particularmente, no Conjunto de Realengo. Este tipo ideal de operário era definido como aquele com acesso à previdência, a órgãos de representação de classe reconhecidos e sob a tutela do Estado, com salário mínimo regulamentado, leis trabalhistas que lhe garantissem, pelo menos formalmente, férias, uma jornada de trabalho definida e um canal de defesa dos seus direitos nos casos de conflitos trabalhistas.

A intervenção do Estado, através de políticas habitacionais como a do IAPI, no espaço de reprodução da classe completa essa proposta mais geral.

Todas essas políticas aparecem no discurso oficial como "dádivas" que o governo oferece à classe, na medida em que vieram responder a uma série de reivindicações que vinham se colocando pelo movimento operário, com maior ou menor grau de radicalização, desde o final do século passado. 32 A imagem de "pai de todos" construída por Vargas e vista positivamente na representação dos informantes não se deve apenas aos recursos de retórica ou à personalidade carismática do presidente/ditador. No modo específico com que Vargas atendeu às reivindicações operárias relativas à regulamentação do trabalho e à previdência, o Estado regulou a inserção social e política dos trabalhadores enquanto cidadãos, reproduzindo as mesmas desigualdades que as reivindicações operárias procuravam extinguir.

Como conseqüência dessas políticas temos o atrelamento das organizações sindicais ao Estado e a consagração das desigualdades sociais através dos benefícios previdenciários que são dispensados aos " Cidadãos", estratificados segundo categorias profissionais.

Podemos voltar, então, à pergunta inicial. Como foi possível a convivência de duas realidades aparentemente tão contraditórias?

Vimos que, no caso do Conjunto de Realengo, ocorreu uma sobreposição de concepções – a do IAPI e a do grupo morador -, pelo menos em algumas áreas. Gostaria de desenvolver essa idéia utilizando dois exemplos relativos aos serviços oferecidos e às regras de ocupação do tempo livre.

Relativamente à posição original em que se encontravam os moradores de primeira geração, a oferta de serviços e de manutenção do Conjunto representava uma melhoria em suas vidas e o reconhecimento pelo Estado, através dos "órgãos competentes", de algumas de suas necessidades.

Apesar de a proposta habitacional do IAPI consagrar as desigualdades, como já foi mencionado, houve uma reapropriação de tal proposta por parte dos moradores, ilustrada nas seguintes representações: " o IAPI dava para nós uma coisa fantástica"; tudo isso aqui era um luxo". Ao invés de se sentirem estigmatizados pelo plano habitacional do IAPI, que definia seus beneficiários como " carentes" que viviam sob "condições problemáticas", os moradores inverteram essa visão oficial e sentiram-se objeto de uma política em que eram reconhecidos e valorizados.

Quanto ao uso do tempo livre do trabalhador, vimos que as Sociedades, apesar de serem criadas e geridas pelos moradores, não constituíam uma oposição ao projeto do IAPI. Isso foi verdade até mesmo durante as conjunturas históricas de maior perseguição aos comunistas nacionalmente, a qual não se efetivou no Conjunto.

A explicação desse aparente paradoxo pode estar no fato de que, no âmbito da utilização do tempo livre do trabalhador, parece haver uma confluência de perspectivas entre o IAPI e a comunidade. Nesse sentido, a autonomia e a direção cunhadas pelos moradores nestas instituições eram relativizadas pelo IAPI pelo fato de estarem combatendo os hábitos "maléficos", como eles definiam, trazidos pelos moradores da favela e do cortiço.

Com efeito, dentre as características mais marcantes dessas Sociedades, presentes no discurso dos informantes, estava o aspecto da moralidade: elas eram instrumentos da união familiar e serviam de exemplo à juventude. Estas características atendiam, de certa forma, aos princípios do projeto normalizador do IAPI com relação ao uso do tempo livre, que previa, como já vimos, unir a família, reforçar os princípios morais em oposição ao que era considerado a promiscuidade da favela e do cortiço e, finalmente, atuar de forma crescente sobre a juventude e a infância.

Para concluir, gostaria de levantar uma questão metodológica, relativa ao uso da memória como material de pesquisa. O fato de ter privilegiado moradores idosos como informantes principais para a reconstrução histórica de Moscouzinho – porque neles estaria a possibilidade de desvendar como a construção de uma comunidade de trabalhadores foi vivida e representada – condicionou a forma mesma em que esta história vai aparecer.

Existe uma especificidade nas representações deste grupo social, já que elas são evocadas e mediadas pela memória. O aspecto fragmentado e por vezes até mesmo contraditório da memória trouxe algumas dificuldades adicionais à interpretação do material de campo. 35

O passado, em comparação ao presente, é representado de forma idealizada. O presente, aqui, é a comunidade pós-1964, e a idealização do passado aparece num contexto de denúncia das condições do presente como nas palavras de uma moradora: " O passado foi maravilhoso, um passado de lutas, de amor, de amizade, de confraternização."

Hoje, em Moscouzinho, diante da precariedade de vida da maior parte dos informantes, dependentes de uma aposentadoria irrisória, defrontados com a marca da inutilidade, porque idosos aos olhos da nossa sociedade, o passado é realçado em cores vibrantes.

Esse grupo social vivenciou uma experiência muito particular de construção coletiva de uma comunidade no contexto de um projeto estatal da década de 40. Este projeto buscava, sem dúvida, a normalização daqueles trabalhadores; mas, de um certo ângulo, foi percebido por este como uma política em que foram reconhecidos e valorizados.

O estudo deste caso particular pode nos indicar uma questão mais geral a respeito da cultura operária e da direção que a identidade coletiva pode tomar. Com efeito, a sua constituição não é baseada na autonomia e exclusão total de outros grupos sociais, mas na contradição entre resistência e aceitação, na reinvenção e reinterpretação de projetos autoritários, tão recorrentes na história brasileira.

     

  1. A descrição do trabalho de campo assim como as evidências históricas utilizadas encontram-se integralmente expostas em minha Tese de Mestrado, Lembranças de Moscouzinho (1943-1964): Estudo sobre um Conjunto Residencial Construído pelo Estado para Trabalhadores Industriais, Iuperj, Rio de Janeiro, mimeo, 1986.

     

  2. Ver José Sérgio Leite Lopes, "Fábrica e Vila Operária: Considerações sobre uma Forma de Servidão Burguesa", in J.S. Leite Lopes et al., Mudança Social no Nordeste. A Reprodução da Subordinação, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979; Eva Blay, Eu Não Tenho Onde Morar Vilas Operárias na Cidade de São Paulo, São Paulo, Nobel, 1985; Sonia G. de Oliveira, Notas sobre o Tema "Vilas Operárias", Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, mimeo, 1984.

 

  1. Veja Licia Valladares, "Estudos Recentes sobre a Habitação no Brasil: Resenha da Literatura", in L. Valladares, org., Repensando a Habitação no Brasil, Rio de Janeiro, Zahar, 1983; Martha Farah, Estado, Previdência Social e Habitação, Tese de Mestrado, USP, São Paulo, mimeo, 1983; Nabil Bonduke, Crise de Habitação e a Luta por Moradia no Pós-Guerra, comunicação apresentada ao IX Encontro Anual da Anpocs, Águas de São Pedro, SP, mimeo, 1985.

     

  2. Como assinalou Luiz Antonio Machado da Silva, a grande contribuição da social history foi a de conseguir romper com a velha dicotomia presente nos estudos sobre a classe trabalhadora. Esta dicotomia, ou reduzia o comportamento dos trabalhadores à dinâmica do capital – tudo é dominação ou reprodução – ou, no outro extremo, reduzia a análise de tal forma ao "ponto de vista do trabalhador" que o tomava como ator autônomo, independente – o pólo da autonomia total. Veja Luiz Antonio Machado da Silva, "Introdução", in L. A. Machado da Silva, org., Condições de Vida das Camadas Populares, Rio de Janeiro, Zahar, 1984.

     

  3. Trata-se do livro The Making of the English Working Class, Middlesex, Penguin Books, 1983.

     

  4. Jean Lojkine, O Estado Capitalista e a Questão Urbana, São Paulo, Martins Fontes, 1981; Christian Topalov, La Urbanización CapitalistaAlgunos Elementos para su Analisis, Cidade do México, Editorial Edicol, 1979; Edmond Preteceille e Jean Terrail, Capitalism, Consumpition and Needs, Londres, Basic Blackwell, 1985.

     

  5. Veja Michel Foucault, Vigiar e Punir, Petrópolis, Vozes, 1977; Jacques Donzelot, A Polícia das Famílias, Rio de Janeiro, Graal, 1980; Murard e Zylberman, "Le Petit Travailleur Infatigable", Recherches, nº 25, 1976.

     

  6. Entre os anos de 1933 e 1938 foram criados vários institutos de aposentadoria e pensões, como o dos bancários e o dos marítimos, entre outros. Para maiores detalhes, ver Amélia Cohn, Previdêndia Social e Processo Plítico no Brasil, São Paulo, Editora Moderna, 1981.

     

  7. Marta Farah, Estado, Previdência Social..., op. cit., pp. 65 e 67.

     

  8. Segundo fontes de época, o Conjunto teria sido inaugurado em 1943, com um edifício de três pavimentos, com espaço no térreo para estabelecimentos comerciais, e várias casas, totalizando por volta de 1.800 moradias. À construção de moradias prossegui até 1950, totalizando em torno de 2.800 unidades residenciais.

     

  9. As visitas desses órgãos ao Conjunto eram cobertas pela imprensa escrita e radiofônica, como atestam os documentos de época. Para maiores detalhes, ver W. Mangabeira, Lembranças de Moscouzinho..., op. cit., pp 80-2.

     

  10. A cidade-jardim foi uma concepção habitacional criada sob a influência da tradição útopica de Owen. Um dos seus pressupostos básicos era que fosse construída fora do centro ou do perímetro urbano, protegida por jardins ou por um grande espaço de área verde. Tal concepção foi reapropriada na década de 30, principalmente nos Estados Unidos e na França. São as green belts e cités-jardins construídas especialmente para trabalhadores pobres oriundos das chamadas habitações "insalubres" no seio das grandes cidades. Para maiores detalhes, ver Leonardo Benevolo, História da Arquitetura Moderna, São Paulo, Perspectiva, 1976, e Gwendolyn Wright, Building the Dream. A Social History of-Housing in America, Nova Iorque, Pantheon Books, 1981.

     

  11. Existe uma vasta literatura datada do século passado em que higienistas, eugenistas e médicos procuram definir os critérios de moradias "sadias", em oposição à chamada promiscuidade e superpopulação das moradias populares na Europa. Ver, a esse respeito, Michel Verret, L’Espace Ouvrier, Paris, Armand Colin, 1979; M. Foucault, Vigiar e punir..., op. cit.; J. Donzelot, A Polícia das Famílias..., op. cit.; e Murard e Zylberman, "Le Petit Travailleur...", op. cit..

     

  12. Alguns itens selecionados das "Normas de Ocupação do Conjunto", com as diretrize4s sobre o uso da casa, dão a dimensão do grau e do nível de interferência do IAPI na vida do morador: "Todos os moradores do Conjunto Residencial de Realengo são obrigados a observar as recomendações seguintes: (...); conservar a casa em que residem, evitando estragos em qualquer de suas partes, peças, aparelhos e instalações; trazer a casa sempre muito limpa, encerar os assoalhos e colocar diariamente o lixo em numa vasilha, em frente à sua casa, rente à entrada, devendo a vasilha ser recolhida logo que o lixo for retirado; permitir a entrada do inspetor do Distrito de Administração e dos operários de conservação do Conjunto na casa, para serem examinados os defeitos da mesma e executados os concertos necessários".

     

  13. Por "assistência social de controle explícito" eu considerei as práticas que visavam legitimar, ou não, determinadas reivindicações dos moradores, assim como reforçar a conveniência da aplicação, pelo IAPI, de alguma pena sobre estes. Tais práticas funcionavam em relação direta com a administração local e central, assim como, às vezes, em conjunto com a polícia. Eram dirigidas através de visitas aos moradores e inquéritos. Estes interpelavam os moradores individualmente e enfraqueciam qualquer tipo de resposta coletiva, já que ocorriam no terreno da burocracia e eram regidos por "regras e leis". As práticas de "bem-estar" buscavam intervir diretamente sobre a reprodução física dos operários/moradores em três direções: a proteção da saúde, com a criação de postos de saúde, vacinação etc ; um programa visando rebaixar os preços de alguns alimentos através da venda subsidiada; e um programa de proteção contra a pobreza absoluta de algumas famílias. Finalmente, uma última faceta da assistência social praticada no Conjunto era a de incentivar e promover atividades culturais e esportivas. Estas atividades, nomeadas pelo IAPI como "recreativas", buscavam oferecer alternativas qualificadas como "sadias" para ocupar o tempo livre do trabalhador/morador. Como afirmava um documento da época, "tirar o operário das oficinas para deixá-lo na ociosidade ou no vício não seria fazer obra de progresso humano". Para maiores detalhes, ver W. Mangabeira, Lembranças de Moscouzinho..., op. cit, cap. 3.

     

  14. Foram realizadas entrevistas com 20 informantes centrais, totalizando 43 horas de entrevistas gravadas, algumas resultado de repetidos encontros com o mesmo informante. As entrevistas transcorriam a partir de um roteiro inicial que previa dados biográficos, estrutura familiar, histórico da vinda para o Conjunto, moradia (escolha, alterações), participação associativa a vida laborial. Este roteiro foi usado de forma flexível, para que o próprio informante pudesse encaminhar a entrevista como desejasse. Em algumas situações, no entanto, foi necessária uma intervenção mais marcada por parte da pesquisadora, por exemplo, quando haviam muita repetição ou os dados divergiam de outras fontes. Além destas entrevistas mais formalizadas, travei inúmeros contatos com antigos moradores que, por diversas razões, não se tornaram informantes centrais desta pesquisa. Foi possível, também, conversar com frequentadores do Centro Recreativo dos Industriários de Realengo, o CRIR, e conviver, ao menos um pouco, no dia-a-dia da comunidade.

     

  15. Este arquivo mostro-se uma verdadeira preciosidade, pois documentava toda a face legal da relação entre a família moradora e o IAPI. Através desses processos foi possível acompanhar as reivindicações, disputas, visitas de assistentes sociais, enfim, toda a trajetória de vida dos moradores. Por motivo de tempo, trabalhei com uma amostra aleatória de 200 processos, que representavam uma amostra de 10% das quase 2 mil moradias inicialmente postas à locação em 1943. Como fonte secundária, trabalhei também com parte do arquivo do IAPI, que se encontra disperso entre a Biblioteca do Ministério do Trabalho, no Rio de Janeiro, e a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

     

  16. Sobre o recrutamento e as regras de seleção propostas pelo IAPI, ver W. Mangabeira, Lembranças de Moscouzinho..., op. cit., cap. 4.

     

  17. Incluía-se, também, nesta categoria, os próprios funcionários do IAPI. Ver lei de criação do IAPI, de número 367, datada de 31 de dezembro de 1936.

     

  18. Como afirmou Dona Elisa, 68 anos, dona-de-casa: "Começou neste pedaço aqui, que não tinha nada, nada. Com a nossa chegada e que começou a ter vida o lugar".

     

  19. Essa questão esta bem ilustrada no depoimento de uma moradora, sapateira aposentada: "Foi feita casas para operários, então os operários se uniram, se juntaram, se encontraram aqui. Era tudo do mesmo nível. Um, um pouco melhor. Outro, um pouco pior. Um ganhando mais, outro ganhando menos. Mas era tudo operário. Tudo operário que se uniram, se entendiam, que se queriam bem."

     

  20. Aparentemente, os conflitos entre vizinhos não eram ocorrências esporádicas. A título de exemplo, transcrevemos parte de um documento do IAPI a esse respeito, ilustrando o caráter normalizador do discurso: "Os atritos verificados entre os vizinhos geralmente são provocados por pessoas desajustas em relação ao meio. Visando precipuamente ao estabelecimento da harmonia entre os locatários, o IAPI vem divulgando, através de publicações próprias, normas e conselhos (...)." Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, O Seguro Social, a Indústria e o Instituto dos Industriários, Rio de Janeiro, 1951, p. 298.

     

  21. Sobre o conceito de identidade contrastiva, "nós e eles", ver Richard Hoggart, As Utilizações da Cultura: Aspectos da Vida Cultural da Classe Trabalhadora, Lisboa, Editorial Presença, 1973. Como afirmou um informante, "o Instituto é que tomava conta daquilo [do Conselho Locatário] e todos os moradores daqui discutiam nas eleições. Era um parlamentozinho bom, né?".

     

  22. Os serviços estavam sendo paulatinamente retirados desde os primeiros anos da década de 50, quando as dificuldades financeiras do IAPI agravaram-se.

     

  23. Ver W. Mangabeira, Lembranças de Moscouzinho..., op. cit., cap. 5.

     

  24. Temos registros, por exemplo, de que, em 1945, logo após decretada a anistia, Luiz Carlos Prestes visitou a comunidade de Realengo, visita esta organizada pelos moradores comunistas do Conjunto. Prestes teria sido recebido pela chefe das assistentes sociais e pelo presidente do IAPI de então. Ver Revista Inapiários, n. 88, agosto de 1945.

     

  25. O Partido Comunista também elegeu 46 deputados em 15 estados e fez a maioria na Câmara de Vereadores do antigo Distrito Federal. Moisés Vinhas, O Partidão – A Luta por um Partido de Massas 1922-1974, São Paulo, Hucitec, 1982, pp. 87-8.

     

  26. Vale a pena ressaltar que não encontramos qualquer informação ou material histórico levantado acerca da relação entre o IAPI e os moradores comunistas durante esse período.

     

  27. Veja, por exemplo, o depoimento de um informante que era assumidamente anti-comunista mas mesmo assim participava do grupo ativo: "Tinha muitos moradores envolvidos com essa coisa, gostavam do Partido, mas não eram como os outros [comunistas], com aquele modo de querer que todo mundo fosse. Aqui, quem não quisesse não entrava. Eu nunca me meti, nunca fui, mas tudo bem. Eles eram todos boas pessoas, não eram vagabundos, era pessoa com uma profissão."

     

  28. Estas duas versões são ilustradas nos seguintes depoimentos: "Chamar de Moscouzinho era coisa de reação – a polícia, o morador insatisfeito, o IAPI" (Dona Elisa). "Diziam que era Moscouzinho porque a gente trabalhava para melhorar a sociedade, em prol da sociedade, porque o operário aqui não tinha nada, ele tinha que melhorar o local dele, né?" (Dona Mimi).

     

  29. Cabe salientar que outras comunidades operárias também receberam a nomeação de Moscouzinho, por razões similares às de Realengo. No Brasil existiu, entre outras, a comunidade de Morro Velho, em Nova Lima, Minas Gerais. Na Inglaterra, durante o período entre-guerras, existiam, entre outras, a comunidade de Mardy, a de Lumphinnas e a do Vale do Leven. Ver Yonne Grossi, Mina de Morro Velho. A Extração do Homem, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, e Stuart Macintyre, Little Moscows. Communists and Working-Class Militancy in Inter-War Britain, Londres, Croom Helm, 1980.

     

  30. "Foi na verdade entre 1931 e 1935 que se começou a atender, de maneira eficaz e sob a fiscalização do Estado, a todas as reivindicações operárias relativas às condições de acumulação, já verbalizadas desde o início do século. A lealdade da grande massa operária urbana a Vargas, transmitida de geração a geração, não pode, portanto, ser explicada apenas por maior ou menor ‘alienação’ do operário industrial, atrelado a figura messiânica de um líder político, mas encontra sólidas raízes históricas na atenção governamental para os problemas criados no processo de acumulação." Wanderley Guilherme dos Santos, Cidadania e Justiça, Rio de Janeiro, Campus, 1979, p. 30.

     

  31. Concebida de cima para baixo, como um instrumento de legitimação do poder estatal, a construção dos conjuntos residenciais tendia a ser vista como "doação" do Estado. Às aspirações ainda difusas dessas categorias de trabalhadores, respondia o Estado com a construção de conjuntos residenciais, de significado impacto político, antecipando-se às reivin- dicações explícitas neste sentido.(...) A remuneração média de operários industriais e de outros trabalhadores manuais era significativamente inferior a remuneração das categorias "médias". A essa diferenciação correspondiam possibilidades distintas de acesso aos programas habitacionais implantados pelos institutos." Marta Farah, Estado, Previdência Social..., op. cit., p. 69.

     

  32. As citações completas são: " Naquela altura [1945], a assistência que o IAPI dava para nós era uma coisa fantástica! Qualquer coisa que escangalhasse em casa, bastava ir ali no escritório, falava com a pessoa responsável, e vinha empregados lá arrumar. E tudo grátis!" (Seu Elias, morador no Conjunto desde 1943, fotógrafo). "Tudo isso aqui era um luxo, tinha jardins nas esquinas, tinha aquela pracinha ali com lago, era uma coisa linda, só a pessoa vendo, voltando aquela época para ver o que era isso aqui" (Seu Carlos, 73 anos, morador no Conjunto desde 1943).

     

  33. Para maiores detalhes, ver W. Mangabeira, Lembranças de Moscouzinho..., op. cit., cap. Final, e Eclea BOSI, Lembranças de Velhos, São Paulo, Queiroz Editor, 1972.